Fonte: G1 

Goiânia/GO – Após 30 anos, vítimas revisitaram locais ligados ao acidente radiológico com o césio-137 e relembraram os momentos traumáticos que viveram em setembro de 1987. Muitos carregam até hoje sequelas, tanto físicas quanto psicológicas, após terem contato direta ou indiretamente com o material. Ouvidos pelo G1, eles relatam que sofreram vários tipos de humilhações, como serem agredidos ao andar na rua, expulsos de ônibus e até “lavados como uma Kombi” no processo de descontaminação.

Foto enviada por Maria Dinah (CNEN/DF) - dinahcnen@cnen.gov.br  - (62)3604-6002/6038;“Lá no fundo, a gente sofre muito, a gente não deixa de reviver as perdas. Não só materiais, mas principalmente vidas e o direito de ir e vir”, disse Odesson Alves Ferreira, membro da família mais afetada pelo césio na época.

O acidente aconteceu após dois catadores de materiais recicláveis encontrarem um aparelho de radioterapia abandonado em uma antiga clínica de radiologia. Eles começaram a desmontar o equipamento em casa e, na sequência, o venderam a um ferro-velho, onde foi feita a descoberta do pó que brilhava à noite. Oficialmente, quatro pessoas morreram vítimas do pó azul radioativo, entre elas a menina Leide das Neves, de 6 anos, e outras 249 tiveram algum tipo de contaminação.

A primeira parada do cilindro com a cápsula de césio ocorreu na Rua 57, no Setor Central, onde foi desmontado, a marretadas. Na época, a residência foi demolida devido à contaminação no local. Até hoje, o lote está vazio e coberto de concreto. A falta de identificações oficiais sobre o acidente ou memoriais em homenagem às vítimas é quase uma regra em todos os pontos afetados. Nesse local, apenas um grafite com elementos radiativos faz referência ao que aconteceu ali, há 30 anos.

O motorista Jason Franco Rocha conta que esteve várias vezes no local atingido para retirar o entulho e levar para Abadia de Goiás, onde todos os rejeitos foram enterrados. Trabalhando inicialmente com roupas comuns, do dia a dia, achava que desempenharia uma tarefa rotineira.

“Viemos para cá sem saber de nada. Nos mandaram falando que era um vazamento de gás. Só do terceiro dia em diante é que ficamos sabendo da gravidade do problema. Daqui saiu televisão, cachorro, galinha, o que tinha aqui foi encaixotado. Não sobrou nada”, contou.

Ele, assim como outras dezenas de vítimas, era funcionário do então Consorcio Rodoviário Intermunicipal S.A. (Crisa), que ficava na Avenida Portugal, no Setor Oeste, em Goiânia. Muitos foram mandados – inclusive sem o material de proteção adequado, em um primeiro momento – para os vários pontos por onde o material radioativo passou. Esses trabalhadores recolhiam todo o tipo de rejeito. Hoje, no local, existe um hipermercado.

“As pessoas que estavam na rua, em algum carro, corriam da gente. A gente não sabia que estava mexendo com uma coisa perigosa”, contou o também motorista Cirilo Aquino Batista.

Ele lembra do susto das pessoas após eles receberem as roupas próprias para o trabalho: “Quando a gente recebeu os macacões para trabalhar, as pessoas assustavam quando viam a gente, parecia até um astronauta”.

Além das lembranças, ele guarda fotos que mostram os trabalhadores sobre os contêineres com os rejeitos radioativos, sua carteira de funcionário do Crisa e até uma espécie de caneta para sinalizar o nível de radiação.
“Ela tinha uma pilha, uma bateria dentro, e a gente sempre deixava no bolso. Quando a radiação era muito grande, ela começava a bater no peito e a gente sabia que ali estava com muita radiação”, completou.

“A gente era enganado, não sabíamos que tipo de risco corríamos, que tipo de problemas podíamos ter, igual eu e muitos colegas temos. Um dia, peguei um ônibus e, quando cheguei no Terminal de ônibus do Dergo, quatro homens me abordaram e perguntaram se eu trabalhava no Crisa. Eu disse que sim, e mandaram eu descer e começaram a me atacar, me empurrar para fora do ônibus”, lembra com muita tristeza o ex-servidor do Crisa, Clóvis Raimundo da Conceição.

Descontaminação
Devido à dimensão do acidente milhares de goianienses precisaram passar por monitoramento e descontaminação no Estádio Olímpico, na Avenida Paranaíba, no Setor Central. Odesson Ferreira pisou no local pela primeira vez após 30 anos e se lembra vividamente do que passou naquela época.

“Dentro dos vestiários, as pessoas eram lavadas como se lava um carro. Usavam vassouras, muita água, sabão e esfregavam. Usavam uma mangueira com um jato bem forte. Fui lavado como uma Kombi”, diz Odesson.

Ele é irmão de Devair, dono do ferro-velho onde a cápsula do césio-137 foi retirada, e de Ivo, que levou o material radioativo para casa e mostrou para os parentes, inclusive a filha, Leide das Neves, símbolo da tragédia e que morreu após fazer um lanche com as mãos sujas com o pó azul.

Ele, que era motorista de ônibus na época, lembra-se da fila que se formou indo da Avenida Paranaíba, contornando o estádio e chegando à entrada de jogadores. Todos eram monitorados: as pessoas que estavam mais contaminadas iam para dentro do gramado. As que estavam com níveis mais baixos iam para as arquibancadas, e outras eram liberadas.

“Eu, por exemplo, fui para casa vestido com um avental descartável, porque minha roupa, sapato, uniforme da empresa onde eu trabalhava, tudo ficou aqui, no dia 30 de setembro”, disse.

Traumas e sequelas
Todos que tiveram algum contato com a pedra azul e radioativa do césio-137 relatam algum tipo de sequela ou trauma.

“Eu não fiquei com um único dente na boca. Qualquer coisa que você sente você acha que é o césio. Já enterramos colegas vítimas do césio, tem outros em cadeira de roda, que não fala”, contou Jason.

O mecânico de máquinas do Crisa, Teodoro Juvenal Bispo Neto, conta que muitos trabalhadores tiveram algum problema de saúde ligado ao acidente radiológico, mas que nem todos são reconhecidos como vítimas.

“Hoje, somos encostados. Tivemos contato com o césio, mas hoje estamos no grupo três para tratamento. Brigamos para receber uma pensão, não temos acesso a nenhuma assistência. Uns os dentes caíram, outros estão cegos. Tem gente com verruga nascendo dentro do olho. Nós nunca quisemos ser heróis de descontaminação de Goiânia”, contou.

Apenas quatro mortes são atribuídas ao acidente com o césio-137. “Apesar disso, tem mais de mil pessoas que recebem alguma indenização. Nessa área financeira, eles admitem que as pessoas foram vítimas, mas para o lado do tratamento, não admitem. Eu perdi a palma da mão, e parte do indicador direito e esquerdo. Eu tive que tratar oito doenças distintas, mas nenhuma delas era associada ao acidente oficialmente. Até 2010 a gente recebia medicação para tratar algumas doenças, mas, desde então, estamos sem receber esse tratamento”, contou Odesson.

A Secretaria Estadual de Saúde estima que cerca de 1.200 pessoas são atendidas pelo Centro de Assistência aos Radioacidentados (Cara), recebendo atendimento em várias especialidades médicas e assistência psicológica. Também são realizadas visitas domiciliares às vítimas e monitoramento dos efeitos tardios da radiação.

Ao todo, segundo a secretaria, 530 pessoas recebem pensões estaduais no valor de cerca de R$ 750 cada, 250 recebem benefícios federais e 130 acumulam as duas. O governo tem um estudo para aumentar o valor, mas não há uma definição de qual a nova quantia e nem quando ela seria concedida.

Com relação aos trabalhadores do Crisa, o governo os reconhece como “trabalhadores de áreas já descontaminadas”, enquadrando-os no terceiro grupo de assistidos. Entretanto, segundo a secretaria, não há nenhuma diferença no tratamento recebido por eles em relação às vítimas dos outros dois grupos.

Sobre a medicação, o órgão explicou que não deixou de disponibilizar nenhum medicamento da farmácia básica e outros de alto custo através da Central de Medicamentos Juarez Barbosa. Entretanto, qualquer outra demanda deve passar por um processo de judicialização.

O governo informa ainda que está em fase de finalização um painel em memória às vítimas do césio-137 que será entregue na inauguração do Hospital do Servidor Público de Goiás.